O programa CRF-GO DE PORTAS ABERTAS recebeu o vice-presidente do Conselho Regional de Farmácia do Estado de Goiás, Daniel Jesus, para uma palestra sobre os avanços no tratamento da obesidade e do diabetes e os impactos no bem-estar integral do paciente. O evento reuniu profissionais e estudantes para discutir como a farmacoterapia moderna está mudando o paradigma dessas condições metabólicas.
O Estado Metabólico do Paciente Obeso
Um dos pontos centrais da aula foi a desconstrução da visão tradicional sobre o diagnóstico. Daniel Jesus enfatizou que, do ponto de vista clínico, todo paciente obeso deve ser considerado diabético, mesmo que ainda não tenha recebido um diagnóstico formal.
Essa afirmação baseia-se na presença constante de hiperinsulinemia (níveis elevados de insulina) no organismo de pessoas com excesso de peso. O processo ocorre devido à resistência insulínica, onde o receptor de insulina nas células deixa de funcionar corretamente, uma analogia a uma "fechadura enferrujada" que impede a entrada da glicose. Para compensar, o pâncreas aumenta a produção de insulina, um hormônio com forte ação anabólica que estimula a lipogênese (armazenamento de gordura) e inibe a lipólise (quebra de gordura), criando um ciclo vicioso de ganho de peso.
Evolução do Tratamento e a Abordagem Multimodal
A palestra percorreu a história da terapêutica, lembrando que o tratamento evoluiu de dietas extremas na antiguidade e o uso de anfetaminas nas décadas de 40 a 70, para uma abordagem multimodal e individualizada no presente.
Atualmente, o sucesso terapêutico depende da combinação de:
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Intervenção nutricional estruturada;
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Atividade física regular;
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Psicoterapia e mudança comportamental;
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Farmacoterapia avançada baseada no perfil do paciente.
O marco tecnológico atual inclui o uso de agonistas de receptores como o GLP-1 e o GIP. A Tirzepatida, por exemplo, já demonstra reduções de peso corporal entre 15kg e 22kg, além de oferecer cardioproteção comprovada.
Impacto no Sistema Nervoso e Bem-Estar Mental
Daniel Jesus destacou que o tratamento moderno vai além do controle glicêmico. Essas novas moléculas atuam na Via Central (SNC), modulando a dopamina e promovendo uma ação neuroprotetora. Um dos resultados mais significativos é o fim do "food noise" (compulsão alimentar), o que impacta diretamente na redução de sintomas de ansiedade e depressão.
"Tratar a obesidade também é tratar o sofrimento psicológico", reforçou o vice-presidente, lembrando que a relação entre peso e saúde mental é bidirecional.
O Futuro e a Responsabilidade Farmacêutica
O encerramento da aula trouxe perspectivas sobre o futuro, com moléculas como a Amicretina e a Retratrutida (um agonista triplo de GLP-1, GIP e Glucagon) em fase de estudos, prometendo eficácia superior a 24% na perda de peso corporal.
Diante dessa complexidade, o papel do farmacêutico no monitoramento clínico é indispensável. O profissional deve estar atento à farmacovigilância, especialmente em pacientes com histórico psiquiátrico, e realizar o manejo adequado de efeitos adversos gastrointestinais para garantir a adesão e a segurança do tratamento.

