Localização estratégica, desenvolvimento industrial e expansão dos medicamentos genéricos ajudaram a consolidar o município, que agora busca avançar na produção de insumos, pesquisa e inovação
Anápolis ocupa uma posição de destaque na indústria farmacêutica brasileira. O município reúne fabricantes de medicamentos, distribuidoras, fornecedores, transportadoras, instituições de ensino e serviços especializados, formando uma cadeia produtiva com alcance nacional.
Essa trajetória está ligada à implantação do Distrito Agroindustrial de Anápolis (Daia), aos incentivos à industrialização, à localização estratégica da cidade e à expansão dos medicamentos genéricos.
Para o vice-presidente do Conselho Regional de Farmácia do Estado de Goiás (CRF-GO), Daniel Jesus, a importância do município deve ser compreendida para além do número de indústrias instaladas.
“Quando falamos de Anápolis, não estamos falando apenas de um conjunto de indústrias farmacêuticas. Estamos falando de um verdadeiro ecossistema da saúde, que reúne indústria, profissionais qualificados, universidades, pesquisa, logística e uma cadeia de fornecedores que movimenta a economia de Goiás e contribui para o abastecimento de medicamentos em todo o país”, destaca.
Daia e localização impulsionaram o setor
Criado na década de 1970, o Daia foi fundamental para a transformação econômica de Anápolis. A partir da década de 1990, o distrito ganhou maior projeção com a instalação e expansão de laboratórios farmacêuticos.
A posição geográfica também contribuiu para esse crescimento. Localizada entre Goiânia e Brasília, com acesso às rodovias BR-060, BR-153 e BR-414 e proximidade com o Porto Seco Centro-Oeste, Anápolis tornou-se estratégica para o recebimento de matérias-primas e a distribuição de medicamentos para diferentes regiões do país.
Outro impulso veio com a política brasileira de medicamentos genéricos, criada em 1999. O crescimento desse mercado abriu espaço para laboratórios nacionais ampliarem a produção e o portfólio, enquanto os incentivos fiscais adotados em Goiás contribuíram para a atração de investimentos.
Natural de Anápolis, Daniel Jesus acompanha de perto esse desenvolvimento e destaca a necessidade de manter o avanço do setor.
“Eu acompanho há muitos anos a evolução da indústria farmacêutica em Goiás e posso dizer que Anápolis, minha cidade natal, conquistou uma posição que precisa ser preservada e, principalmente, ampliada. Temos conhecimento, estrutura industrial e profissionais extremamente capacitados. O desafio agora é agregar cada vez mais tecnologia e inovação àquilo que produzimos”, afirma.
Uma cadeia que vai além das indústrias
A consolidação do polo também movimentou uma ampla rede de atividades. Além dos profissionais envolvidos diretamente na fabricação, o setor demanda farmacêuticos, químicos, engenheiros, técnicos de laboratório, pesquisadores, profissionais de logística, controle de qualidade e assuntos regulatórios.
Transportadoras, distribuidoras, fabricantes de embalagens, empresas de tecnologia e laboratórios de análises também fazem parte dessa cadeia, ampliando o impacto econômico e profissional da indústria farmacêutica no estado.
Nesse cenário, o farmacêutico ocupa diferentes áreas estratégicas da cadeia produtiva. Segundo Daniel Jesus, a expansão do polo também significa novas possibilidades para a profissão.
“Por trás de cada medicamento produzido existe uma enorme responsabilidade técnica. E o farmacêutico está presente em praticamente todas as etapas: no desenvolvimento, na produção, no controle e garantia da qualidade, nos assuntos regulatórios, na logística e na farmacovigilância. O crescimento do polo de Anápolis também representa a valorização e a ampliação do campo de atuação da nossa profissão”, ressalta.
Produção de insumos é o próximo desafio
Apesar da relevância na fabricação de medicamentos, Anápolis ainda tem espaço para avançar na produção de insumos farmacêuticos ativos (IFAs), substâncias responsáveis pela ação dos medicamentos no organismo.
O desafio acompanha uma questão nacional: o Brasil ainda depende fortemente da importação de matérias-primas farmacêuticas, situação que pode afetar custos, prazos e o abastecimento.
Um avanço nesse sentido foi anunciado em março de 2026, quando o governo federal informou que uma unidade instalada em Anápolis iniciaria a produção de escopolamina. Segundo o anúncio, seria a primeira fabricação desse princípio ativo na América Latina.
Para o vice-presidente do CRF-GO, reduzir a dependência externa é uma questão estratégica para o país, especialmente diante das lições deixadas pela pandemia.
“A pandemia mostrou de forma muito clara que soberania sanitária não é um conceito abstrato. Um país que depende excessivamente do exterior para medicamentos, insumos e tecnologias essenciais fica vulnerável. Fortalecer polos como Anápolis é também fortalecer o SUS e a capacidade brasileira de responder às necessidades da população”, afirma.
Futuro passa pela inovação
Além de ampliar a produção de insumos, o próximo passo para o polo farmacêutico de Anápolis envolve investimentos em pesquisa, desenvolvimento de medicamentos, biotecnologia e qualificação profissional.
A cidade já reúne infraestrutura, mão de obra, fornecedores, experiência regulatória e localização estratégica. Para Daniel Jesus, o desafio dos próximos anos é aproveitar essa base consolidada para avançar também na geração de conhecimento e tecnologia.
“Anápolis já provou que sabe produzir medicamentos em grande escala. O nosso desafio para os próximos anos é fazer com que seja reconhecida também como um polo de pesquisa, inovação e desenvolvimento tecnológico farmacêutico”, pontua.
Na avaliação do vice-presidente, essa evolução é fundamental para que o município amplie sua contribuição para a indústria farmacêutica brasileira e para a autonomia do país no setor.
“O futuro de Anápolis não pode ser apenas produzir mais medicamentos. Precisa ser produzir mais conhecimento, mais tecnologia e mais inovação dentro do Brasil”, conclui.

